Cada vez mais eu vejo historinhas bonitinhas sobre startups e empreendedorismo pipocando no Facebook e por outros locais, principalmente na internet. Bem, eu tenho a minha história com isso, eu vou contar como eu tive uma empresa com mais 4 amigos (que pode ser que fiquem bravos com o que eu vou falar aqui) e como ela falhou miseravelmente.

A ideia

A ideia central da Octopuz (ainda existe o site, vai lá ver: octopuz.com.br) era criar um ambiente de trabalho (desktop mesmo, pra usuário final) completo e que fosse acessível em qualquer local e em qualquer dispositivo. Ou seja, uma nuvem pessoal como a Amazon quer fazer agora. Problemas técnicos a parte, a ideia era boa e ainda não foi implementada até hoje.

Os sócios

Éramos 5 sócios, eu e mais 4 amigos (de fato amigos) com conhecimento técnico em programação e com nenhum conhecimento de gerência e empreendedorismo, e isso foi quase que crucial (junto com a falta de tempo) para que a empresa se perdesse em si mesma e acabasse. Como tudo aconteceu?

A ideia nasceu no pátio da faculdade, na frente do bar, em 2009 (mais ou menos) numa conversa sem muita pretensão e, aos poucos, foi ganhando corpo. Primeiro a gente pensou em serviço típicos de “garoto que mexe com computador” para nos mantermos e, aos poucos, conseguir iniciar a ideia de fato. Falhou, primeiro porque era complicado cobrir custos com clientes pequenos que não querem pagar nada e depois porque é muito mais complicado do que se imagina conseguir clientes que paguem em dia, que aceitem uma linha de produção minimamente organizada e com custo em todas as pontas (nunca é só uma alteraçãozinha). Chegou a hora então de pensar em ir direto pra ideia, pra nuvem, e cortar todo o acessório que poderia vir disso.

O primeiro erro

Na época não sabíamos como exatamente fazer uma empresa sair do chão e nem como isso poderia ser complicado de ser executado. A melhor ideia, na época, era conseguir ajuda e, ao que parecia, a ajuda viria desses aceleradores de empresas (startups) que fazem maratonas de empreendedorismo e colocam todo mundo em contato uns com os outros. Fui lá na UFRGS e fiz a maratona de empreendedorismo, que durou mais ou menos 6 meses, pago (muito bem pago) e que deveria me colocar em contato com consultores e professores da área e o (supostamente) melhor de tudo: empreendedores novos com vontade de tocar o negócio. Ledo engano. Basicamente o curso era um desfile de egos de pessoas que já tinha empresas e estavam colocando uma outra ao lado dessa, como se fosse um braço da empresa principal, e queriam abocanhar esse tipo de mercado, de startups (é moda, todo mundo acha que uma startup de TI vai criar milionários da noite pro dia, todos serão o novo Zuckerberg), com dinheiro que já tem e com a capacidade que não tem. Basicamente, foram meses inúteis em que eu acordei cedo e não aprendi nada (ok, aprendi, devo dizer que o consultor de finanças era um cara muito bom e muito preocupado com o negócios de todos ali, minha única indicação seria ele, mas não me lembro o nome do cara, então foda-se). Tiveram brigas, desafios morais e muita idiotice (tinha cara que ia pra lá falar quanto tinha ganhado no ano e tentar pegar as colegas). O primeiro erro foi esse, gastar dinheiro com uma coisa inútil como essas aceleradoras. Ainda pode-se dizer que o primeiro erro MESMO (conseqüência na verdade desse primeiro semi-erro) foi se preocupar com o Plano de Negócios (não serve pra nada, é um documento engessado que não acompanha as mudanças da tecnologia e da empresa).

O primeiro conselho

Não entre em nenhuma aceleradora de empresas, de sonhos ou de qualquer coisa. Elas não servem pra nada. Procure locais de coworking onde você vai ter pessoas parecidas com você que podem te ajudar (ou não) a entender o mercado e te ajudar a fazer o seu negócio acontecer. Não faça um plano de negócios antes de ter um negócio de fato. Ele não serve para nada.

O segundo erro

Passamos por esse curso sem ganhar nada em nenhum termo, foi inútil. Pensamos que precisávamos então de uma ajudinha de outro tipo, com conselhos diretos e espaço físico (e infra-estrutura). Nesse meio tempo outros dois grandes amigos se juntaram ao projeto e ajudaram a tocar e fomos, enfim, criar uma empresa de fato. Gastamos dinheiro a toa (com equipamentos) porque estávamos tentando seguir o plano de negócios que tinha sido feito um tempo atrás (ele vai ser um problema constante). Tivemos sede em duas casas de amigos até que conseguimos, finalmente, ir para uma incubadora (na UFRGS). E esse foi o nosso segundo erro (e mais crucial). Depois de 2 anos de sonhos com a empresa finalmente nós tínhamos a nossa sala, com computadores, internet e um logotipo bacana na porta. Tínhamos dinheiro, tínhamos espaços e não tínhamos clientes (novamente). Conseguimos alguns contatos mas apenas um se concretizou em duas reuniões inúteis que não levaram a nada. Ao final de seis meses o produto não existia e tinha sido modificado tantas vezes — por culpa direta das consultorias que não acreditavam no que estávamos fazendo — que eu nem sabia mais como vender aquilo e muito menos o que estava sendo feito. Cada reunião mudava algo que eu tinha como certo e nenhuma linha de código era aproveitada. Cada momento em que eu me sentava na mesa com os meus amigos só geravam mais dúvidas em todos nós e abriam mais e mais caminhos, nenhum era possível de seguir e nenhum levava-nos para lugar algum. Estávamos, finalmente depois de 3 anos, sem ânimo para aquilo continuar.

E (quase) tudo foi por culpa direta das consultorias que nos cegaram e nos carregaram para um modelo de negócios (mais um) que não nos trazia nada de novo, seríamos mais um no meio de um mar de produtos sem nenhum tipo de atrativo. Seríamos mais uma empresa que entregava “solução em nada” para empresas que não sabem o que querem. E isso não era legal. Ao final desse tempo estávamos todos desgastados, exaustos e sem vontade de seguir. Fechamos a empresa, entregamos a sala e nunca mais falamos sobre o assunto, mas, hoje, depois de 2 anos, eu consigo tirar alguma coisa de bom desses dois erros.

O segundo conselho

Não perca tempo com consultores, conselheiros, incubadoras ou qualquer tipo de local que diga que vai te ajudar com uma fórmula pronta. Essas pessoas só conseguem ir até onde elas sabem, só conseguem enxergar o que o mercado tem e fazer algo parecido, nada disso importa quando se tem uma ideia nova. Foque no seu produto e na sua ideia, feche os olhos um pouco para todo o resto e faça. Execute. Saia do lugar e do papel. Não perca tempo com plano de negócios, investidores anjos, incubadoras, concursos de aplicações. Nada disso importa. O que importa é você tirar a bunda da cadeira e ter algo que funciona, com o mínimo de funções necessárias para funcionar e com o máximo de execução possível. Nada mais importa, só a execução.

Resumo

A verdade é que muita gente vai dizer que todo mundo erra (e erra mesmo) e que isso é normal (FailCON está aí). Mas o que ninguém me disse é que esses erros vão vir, essencialmente, dos outros cagando regras e mais regras (em todos o setores da sua empresa nascente) e que isso é o que vai te calar e te matar, e no final, aquela ideia linda e brilhante que você e seus amigos tinham, vira um fardo pesado demais, que todo mundo quer se livrar e seguir por outro caminho. Por isso eu digo, do alto da minha falha: FODA-SE qualquer tipo de consultoria, incubadora, aceleradora, concursos, rodada de investimento pública, etc. Nada disso vai te ajudar se você não tiver o seu foco definido ou não for uma empresa que venda um produto numa caixinha. No final, elas não servem pra nada, a não ser pra te desanimar.

Conclusão

Então, o conselho final é: levanta a cabeça e faz o que tu acha que é o melhor. Seja lá o que isso signifique, mas faz. Ao menos, se você errar será por sua única e exclusiva culpa.