Porque eu não acredito que corporações vão me salvar

Sempre fui incentivado a estudar pelos meus pais, mesmo meu pai detestando e sendo um programador sem formação (funcionário público). Minha mãe é “estudiosa” até hoje, professora no mestrado.

Dito isso, meus pais sempre deram um jeito de eu estudar, problema disso é que as condições financeiras nem sempre foram favoráveis ao estudo “bom”. Meu pai foi demitido na era Collor — 1991 — e demorou 3 anos para voltar pro emprego que era dele por meritocracia (passou no concurso ora) porque o Collor achou que era uma boa demitir um pessoal que tava lá fazia mais de 20 anos ganhando um salário de fome (até hoje a repartição que meu pai trabalhou ganha mal, procurem pelo salário da CONAB). O fato dele ser ex-funcionário público impossibilitava que ele arumasse outro emprego — nos anos 90 era ainda pior ser funcionário público, o preconceito era muito mais forte e muito mais direcionado, mesmo na família dele era comum que tirassem ele pra vagabundo.

Eu comecei a estudar em 89, quando tinha 6 anos, numa escola particular, mas, com a demissão do meu pai (e uns problemas de comportamento “limítrofe” que eu tinha) eu tive que ir pra escola pública. A escola pública que eu frequentei era terrível como a imensa maioria das escolas públicas do estado. Me lembro que eu tinha que comprar o lanche e comer na sala porque senão os “maloqueiros” vinham e me roubavam (eles entravam por um buraco de uns 2m de diâmetro feito na tela da cerca da escola) não só o lanche. Faltavam professores de tudo que era matéria: história, matemática, biologia e principalmente português. Isso criou cenários bizarros na minha vida escolar (e na minha formação) com na quinta série quando eu passei tendo feito apenas uma prova (e tirado 7) em matemática. Não raro tudo o que era visto de matéria eram 3 semanas de aula no final do quarto bimestre.

Passei sem muitos problemas de nota, mas, com muitos problemas de comportamento — que me levaram pela primeira vez na psicóloga — e de aceitação de autoridade (de professores e diretores). Isso influenciou diretamente no meu segundo grau, quando eu fui pra uma escola estadual que era bem mais forte e que tinha matéria de fato — ainda que faltassem professores seguidamente — durante o ano inteiro. Quase rodei 2x, passei porque a minha mãe tinha tempo pra me ensinar em casa e porque eu tive um daqueles professores de filme no segundo ano que meio que resgatou uma turma inteira de problemáticos (pasmem, ensinando a gente técnicas de desenho com carvão e outras coisas e não com engenharia).

Nessa mesma época meu pai, que foi reintegrado ao cargo dele, quando o Itamar fez uma espécie de anistia aos funcionários demitidos pelo Collor. De quebra, meu pai ainda recebeu uma indenização alguns anos mais tarde em função dos 3 anos de desemprego injusto e conseguiu pagar um cursinho pré-vestibular pra que eu tentasse entrar na UFRGS. Tentei por 2x entrar em Medicina — mais por sonho da minha mãe do que por desejo meu — e falhei. Falhei ainda mais uma vez no vestibular pra Biologia e só fui passar na quarta vez quando fiz Matemática.

E nesse momento, na UFRGS, que a minha incapacidade financeira e todas as falhas educacionais propiciadas por pouco menos 11 anos de ensino público deficitário cobraram um preço alto.

Eu nunca consegui acompanhar o ritmo dos meus colegas oriundos do CMPA, Tiradentes, Anchieta, Americano e outros. Isso me deixava num misto de irritação com depressão.

Comecei nessa época a trabalhar — trabalhei na Tlantic, no Tecnopuc — e conheci pela primeira vez a síndrome do impostor (afeta muito quem trabalha com TI) e acabei saindo de lá depois de 6 meses de estágio. Ainda insisti fazendo Matemática por mais alguns anos, até 2006, quando eu resolvi fazer Física — porque né, Física é legal — e falhei ainda mais, tanto como aluno como pessoa. Demorei muito tempo pra entender porque isso acontecia comigo — ainda trabalhei na HP e da DELL nesse meio tempo, sempre com uma depressão absurda — e porque eu não conseguia acompanhar o ritmo dos cursos de exatas da UFRGS (professores incapazes de sentir empatia, empáfia estúpida que impede que programas de acesso ao conhecimento sejam difundidos e facilitadores nas provas mais complexas de Cálculo e Equações ajudam muito a manter um certo staus quo dentro dos cursos de exatas) e porque eu me sentia tão mal lá dentro.

Nessa época, já bem mais velho, com 27 anos, resolvi que tinha que parar de tentar bater no mundo e deveria pensar na minha vida inteira. Fiquei 6 meses em casa, pensando, colhendo informações e indo em aulas avulsas de vários cursos, até que me decidi por Letras.

Não existe lógica nisso, mas, não me arrependo.

Ainda que eu tenha tido vários momentos de depressão — novamente — e aos trancos e barrancos levei a minha graduação com R$400 mensais da bolsa de IC, as amizades e principalmente a visão que eu tive de mundo lá dentro, longe do pragmatismo dos professores matemáticos, me ajudou a entender muita coisa e muitos motivos que me levaram ao fracasso inicial na UFRGS.

Hoje, com 33 anos, eu tenho plena consciência do que eu vivi e porque eu vivi. Porque eu falhei em X e porque eu consegui superar Y.

Enfim, depois desse relato eu pergunto:

Como superar isso sem ser por meio de políticas afirmativas? Sem o dedo estatal, como sair da pobreza?

O discurso libertário, como eu já disse, é sedutor porque parece, num primeiro momento, que coloca o poder todos nas tuas mãos, tirando qualquer variável que não seja a competência e o esforço.

Mas, como competir, como se esforçar, como chegar no mesmo ponto se o percurso pra uns é feito com carro enquanto os outros correm com as duas pernas amarradas?

Não sou afeito ao controle estatal a ao Estado detentor de plenos poderes — sequer de poderes — mas não vejo como o capitalismo, centrado em corporações e consumo, conseguirá dar cabo de problemas sociais como os que eu enfrento (e levando em conta que eu sou um privilegiado dentro do Brasil, porque a realidade da maioria da população é bem pior do que isso).