Shit, my mom’s been fucking a dead guy for thirty years. I call him Dad.

Dia 2 de agosto Kevin Smith, a mente por detrás de Clerks — no Brasil “O Balconista” — completou 46 anos. Em outubro Clerks completa 22 anos. Ou seja, Smith fez Clerks aos 24 anos, auge daquele momento em que uma grande massa de gente está, mais ou menos, perdida e acreditando que todas as escolhas poderiam ter sido melhores. É o que se costuma chamar de “crise um quarto de vida”, i.e., é normal estar meio perdido nesse estágio da vida. É o zeitgeist desse momento, tem que esteja inserido, tem quem não esteja.

1994.

Os anos 90 — que o marketing insinua com um revival agora — foram uma época estranha em todos os sentidos. A moda foi um amálgama do pós-punk com o industrial que viria nos anos 2000. A música não sabia se caminhava pro pop comercial dos anos 2000 — era o início do advento das boy bands — ou se voltava os olhos para o indie rock dos caras como Radiohead. A política mundial não sabia lidar com a não-existência de uma Guerra Fria e de um inimigo definido. Tudo era turvo nos anos 90. E Clerks é o zeitgeist dessa turbidez.

Me lembro dos anos 90 de maneira muito peculiar: através dos meus primos mais velhos, uma vez que eu era uma criança e não conseguia entender muito bem aquela imagem de cansaço que todos passavam na época; cansaço que só fui entender mais profundamente alguns anos depois, quase uma década diga-se, quando eu estava naquele limbo dos 20 e tantos anos (faz um tempo já, inclusive) onde não se tem muito o que pensar, onde as opiniões externas tem peso de chumbo e onde seus pais parecem que fazem tudo errado (ainda que sem o peso da rebeldia sem rumo da adolescência) e, numa noite depois de muita insônia assisti finalmente Clerks.

Para além do humor rápido e das milhares de tiradas sarcásticas que o filme de estréia do Smith consegue, a atmosfera que ele passa é exatamente o que se tem em mente quando se tem 20 e tanto anos, e a estética em, preto-e-branco ajuda nessa sensação de despersonalização que o filme quer passar — ainda que isso seja, ao final, uma mensagem do tipo “todo mundo está assim não se sinta nem um merda e nem muito especial”.

A verdade é que essa aura derrotada é a aura dos anos 90 e de quem fez dele a sua década e é nisso, em captar essa incapacidade de sair do lugar, que Clerks se faz diferentes e bom, muito bom.