Porto Alegre tem uma história bastante rica em termos de futebol até a década de 60. Clubes como o Renner (que ganhou do Rolo Compressor o citadino e o gaúchão de 54), Força e Luz, Fussball e o próprio Cruzeiro (hoje em Cachoeirinha) mas que carece de uma historiografia mais detalhada. O próprio Grêmio e o Internacional tem problemas na sua gênese. Existe um movimento “revisionista” que diz que o Grêmio aceitou jogadores negros ainda na década de 10 (Antunes) que ainda que pareça um erro de interpretação (na época se chamava de mulato/mestiço qualquer um que não fosse europeu ou descendente) seria interessante investigar mais e correr atrás de mais registros e histórias. A própria história do Tesourinha (provavelmente o maior jogador da história do RS), da Ilhota até o RJ e posteriormente na seleção, deveria ser melhor documentada.

Sobre a formação e fundação do Inter como clube e como força da cidade de Porto Alegre, muito se tem de lendas e muito pouco de concreto, provavelmente por conta da precária historiografia ao redor do esporte em seus anos iniciais no estado e no país. Uma das histórias mais contadas é que o Inter sempre fora um clube identificado com o povo da cidade, nascido no samba e no carnaval (ainda que isso seja verdade, não é exatamente assim). O Inter, como todo o clube da época - ou a maioria - era um clube de elite na cidade. A diferença primordial do Inter pro GRÊMIO no caso da fundação é que o Inter aceitava “todos os brasileiros” (menos os negros) enquanto os clubes alemães como o GRÊMIO e o Fussball pediam que se tivesse ascendência alemã pra entrar no clube, tanto que o troféu Vanderpreiss era disputado entre esses dois para fortalecer os laços da comunidade germânica em Porto Alegre – principalmente fazendo frente a imigração judaica do Bom.

Internacional e os anos iniciais, representatividade e inclusão

O campo inicial do Inter era na Redenção por conta da proximidade do local com a UFRGS (ou URGS ainda) o que facilitava a maioria dos jogadores, estudantes da faculdade de Comércio e Direito ali no campus do centro – a irem jogar depois das aulas. Isso já denotava a elitização do Inter inicial, afinal em 1909 só quem fosse filho de estancieiro ou comerciante pródigo em Porto Alegre conseguiria ter ensino superior. Existe porém um “escurecimento” do Inter nos primeiro anos, mas basicamente porque como o campo do Inter era na redenção e ficava perto dos pontos de bonde, a “torcida” colorada se criou ali na volta com os ex-escravos e filhos de escravos que trabalhavam nos casarões do centro da cidade e iam no final da tarde pros bairros pobres como Ilhota e Areal da Baronesa (um dos territórios negros mais conhecidos do país e que hoje é um quilombo). Vicente Rao é uma peça bem pequena nessa engrenagem que ganhou uma notoriedade porque era famoso na época (e possivelmente porque era branco). Por fim, essa torcida obviamente torcia pelo time com uma forte base na cultura negra de ritmos e muita festa. Isso, aos olhos dos sócios e jogadores dos outros clubes era mal visto na época (e talvez ainda seja) o que começou com o grande problema do racismo em relação a torcida do Inter (eram macacos porque pulavam nas árvores da redenção a cada gol colorado, esqueçam aquela história pra boi dormir que uma parte da torcida gremista criou dizendo que era porque “copiavam” o GRÊMIO).

Uma pena que o único registro de que tenha sido o Inter que vetou o Rio Grande (time de mulatos) de participar do “campeonato gaúcho” na década de 10 (1915 dizem) seja a crônica do Lupicinio Rodrigues (passional torcedor gremista que não era muito afeito ao Inter na época). Mas, historicamente, o veto que deu inicio a liga das canelas pretas foi da direção colorada – ainda com seus fundadores. A liga das canelas pretas acabou ganhando notoriedade na década de 20. Existe um revisionismo (errado) que diz que o GRÊMIO aceitou negros na década de 10, mas isso é errado (provavelmente) porque os registros da época chama eles de mestiços e isso, na época e no contexto do quadro social do GRÊMIO, provavelmente quer dizer apenas que eles eram brancos sem ascendência direta de alemães. Historicamente e oficialmente o Grêmio aceitará negros no seu quadro de jogadores em 1952 e o Inter em 1926, ainda que o Inter tenha na sua ata de fundação a assinatura de dois negros - trabalhadores do Cais se não me engano - mas sem ter jogadores negros até a profissionalização do futebol no RS, pós canelas pretas.

Com o tempo, principalmente nos anos 40 do Rolo Compressor, essa torcida acabou sendo abraçada pelo Inter, principalmente após a liga das canelas pretas. O Inter foi virar de fato o “Clube do Povo” e aceitar essa imagem na época da construção do Beira-Rio com todo o programa de doações da torcida tanto pra aterrar o terreno – o Inter ganhou um “terreno” da PMPA que era, basicamente, água na beira do Rio Guaiba – quanto pra construir o estádio de fato (foto clássica: o Falcão com um carrinho de mão no estádio). A partir daí se intensificou a campanha do “clube do povo” principalmente quando os mandarins assumiram o Inter na década de 70. O tricampeonato e o título invicto deram uma força que nenhum time fora do eico RJ-SP tinha época e isso impulsionou o clube nas classes mais baixas da população, mas agora, já sem a segregação explicita de antes.

Ainda assim, porém, a gente sempre deve pontuar a coréia do Beira-Rio, que é a típica inclusão brasileira: vocês pobres podem ficar nos mesmos espaços que a gente, mas vocês aí embaixo e nós aqui em cima. A coréia era o “rolêzinho” de antigamente, digamos assim, principalmente nos anos 90 quando era comum pagar R$1 pra entrar e depois subir com uma corda de camisetas pra geral. O próprio espirito da coréia esse de pobreza e miséria, o campo mal podia ser visto (fui umas 4 ou 5 vezes lá) e as pessoas que habitavam o local eram desde mendigos até drogados e ex-presidiários. Excluídos socialmente e excluídos novamente no estádio, mas ainda assim, ali, eles eram melhores do que eram diariamente, por isso a “inclusão brasileira” de incluir sem de fato incluir.

Mas uma coisa ainda deve ser dita, comparativamente, é certo falar que o Inter sempre foi um clube pobre em relação ao GRÊMIO, por exemplo, principalmente até a década de 50. Por isso o “ethos” do clube sempre foi muito mais popular, estudantil e por vezes teve chefes de torcida e dirigentes mais ligados aos movimentos da esquerda de Porto Alegre do que o GRÊMIO. Hoje isso não faz sentido mais, mas, a ideia central do clube, a imagem que ele tem fora do estado, ainda cola muitas vezes com essa coisa popular.

Ainda tem todo o esquema do estilo de jogo do Inter (brasileiro) x o Grêmio (gaúcho) que foi fruto direto da fundação dos dois clubes, um com a organização metódica e o pragmatismo germânico e o outro com a desorganização sistêmica de um grupo de estudantes - e, diga-se, o Inter inicialmente era exatamente a antítese do Grêmio em tudo, reza a lenda que na década de 30 era “comum” se queimar bandeiras da Alemanha como provocação aos gremistas.

Grêmio e Inter como clubes x constrastes

O Grêmio inicialmente tinha muito mais uma barreira racial - de ascendência européia privilegiando a alemã - do que monetária. Os imigrantes, tanto italianos quanto alemães, tiveram uma rápida ascensão no estado todo devido a fatores da própria imigração deles no estado e no país, por isso temos tantos “palestras” pelo país. Isso favoreceu em grande parte a “pecha” de elitismo do clube que, ainda que fosse de fato um clube com dinheiro, não era essencialmente esse o escopo deles, inicialmente. Isso foi sendo aberto aos poucos, ainda assim, por ser um clube alemão quem era “de fora” da comunidade acabava se sentindo como não fazendo parte dali e procurava outros clubes - foi o que aconteceu com os Poppe quando fundaram o Inter, por exemplo.

O Fussball era completamente fechado mesmo. O troféu Vanderpreiss era, primeiro no Remo e depois no futebol, uma partida-festa para celebrar a cultura germânica e “combater” a fuga dos mais novos para outros clubes. Até o GNU, como clube, chegou a fazer frente ao Grêmio no início, ainda que também fosse alemão (fundado pela família Bercht ou algo assim). Tinha também o problema da imigração judaica (1891) que chegou a incomodar os alemães no início de 1900/1905 no RS. Enfim, tinham várias questões que, falando sinceramente, faziam com que fosse, na época, entendível que o Grêmio se fechasse na associação - era bem complexo de conseguir um título do clube.

O Grêmio acabou tendo, depois de 52, um grande sucesso com atletas negros mas, muito mais, por conta das políticas de contratação inciais e por conta da importância que se deu, dentro do clube, da contratação de atletas negros - até a década de 70 isso ainda assunto recorrente na direção do Grêmio. Depois disso é quase que universal a quantidade de jogadores negros como sendo predominantes nas times. O negro, inicialmente e quando se começou a falar do problema no país, acabou sendo um totem do novo Grêmio - principalmente no clube pós-Foguinho - para mostrar a mudança que tinha se instalado no clube.

O Inter por outro lado sempre esteve mais inserido nesse contexto, sempre se identificou mais - ainda que “a brasileira” - com esse lado pobre e negro de Porto Alegre. Nunca teve no Inter nenhum tipo de restrição quanto a atletas negros, porém, na época era complicado se dedicar ao futebol e por isso apenas as classes mais altas o faziam – era um hobby caro de meninos de classe alta - e os negros acabavam jogando a liga dos canelas pretas que, na época, já era profissional (eles recebiam prêmios por vitórias e títulos). O Inter se profissionalizou antes do Grêmio e isso ajudou a ter o Inter mais inserido nesse contexto racial. O “Rolo Compressor” (que o grande expoente era o Tesourinha, que depois jogou no Grêmio, um dos primeiros a quebrar o ciclo de combinados entre RJ e SP na seleção brasileira) da década e e o “Rolinho” da década de 50 eram compostos por mulatos e negros, basicamente. Posteriormente se teve muitos outros, principalmente na década de 70 quando se implantou a filosofia dos mandarins (de jogadores altos e fortes mas com habilidade).

Ironicamente, porém, os maiores jogadores do Inter, lembrados pela torcida, são brancos: Figueroa, Falcão, Fernandão e D’Alessandro. Nenhum, note-se, nascido no RS e 3 estrangeiros.Tesourinha é um dos grandes jogadores negros do Inter, mas, hoje em dia pouco lembrado pela torcida por conta da distância temporal e por ele ter jogado no Grêmio posteriormente. Ainda na época do Rolo tinha o Carlitos (branco) e o Bodinho (mulato, pelo menos, mas eu chamaria de negro). Um do RS e outro de fora (não me lembro de onde era o Bodinho).

Aliás, se for apontar uma das grandes diferenças do Inter pro Grêmio em termos de mito fundador é exatamente essa: o Grêmio é muito mais local (não em termos de títulos mas de formação do clube) do que o Inter que se tornou muito mais brasileiro (tanto no estilo de jogo ao longo dos anos quanto em como pensava o futebol desde a gênese do clube). E isso não é gratuito, a fundação do Inter foi exatamente pra ser antagônica a formação do Grêmio, o Inter foi pensado pra ser assim desde o início.

Sobre a direção, de fato o Inter tem majoritariamente o CD e a direção do clube formadas por brancos, quase sempre de sobrenome português e italiano, o que comprova a hipótese da inclusão brasileira dos negros e pobres no clube - eles ficam na coréia e posteriormente no campo, nunca tomando decisões internamente.