Eu tenho, assim como todo mundo, uma série de lembranças da minha infância que, quase sempre, me pegam pelo pé nos momentos mais solitários. Uma espécie de pré-depressão que se esconde nas sombras das minhas sinapses até que, no momento certo, eclodem num ataque de oportunidade e me fazem lembrar daquela época, uns 20 anos atrás, quando “fominhas de pêssego” custava 20 centavos no mercado e era o acompanhamento perfeito para um refrigerante de laranja de 35 centavos a garrafa de 2L.

Os tempos eram outros, eu sei, mas naquela época tudo parecia eterno. O NES que esquentava debaixo da TV de 14’ do meu quarto era o ápice do meu entretenimento. A bolacha que a minha avó trazia do centro de Porto Alegre, era o ápice da culinária e o grande evento gastronômico da era moderna. os constantes rachas entre os amigos por conta de alguma trapaça no vídeo game ou de algum jogo de futebol mal resolvido na rua. Tudo era uma experiência que moldava aos poucos o caráter de todos ali naquele círculo de crianças de 12 anos. A sinceridade com se dava um tapa na bolacha do amigo do lado, só pra ver ela rolar pelo chão e o cachorro roubar o último doce da existência era comparável aquela conversa séria com o seu amigo, 20 anos depois, sobre casamento, morar junto, filhos e noivas. A essência da inocência era, exatamente, não saber o tamanho que aquela relação tinha fora dali.

Anos mais tarde, quando eu já era adulto e o tripé tinha se desfeito, recebi a notícia que o Diego, o mais velho da turma, tinha morrido de um aneurisma. Foi a última vez que eu tive contato com o Bruno, primo dele e hoje casado e morando longe, o outro integrante do tripé. Éramos, naquela época de pré-adolescência, as três pessoas que sempre estavam juntas (brigando, correndo, xingando e se ralando pela rua).

Jamais sabíamos o quanto aquela fase de vídeo games e bolachas de pêssego iria impactar na nossa vida, anos mais tarde e de maneiras diversas; mantendo, porém, o mesmo impacto brutal em todos nós.

Éramos imortais aos 12 anos. E ainda somos, nas minhas lembranças ao menos.

Hoje eu apenas sinto o gosto amargo na boca ao pensar que eu nunca mais tive amigos iguais aos que eu tinha aos 12 anos.

Das “fominhas de pêssego” e das tardes tenebrosas do verão gaúcho

Fominhas de pêssego em toda a sua glória.

Minha avó materna sempre teve o hábito de comprar as coisas pra minha mãe, mesmo quando a gente visivelmente não precisava da ajuda dela (que foram poucas vezes, admito) em casa. Minha avó sempre teve um espirito muito organizado, muito pragmático; o que sempre deu a ela uma capacidade ímpar de conseguir se programar e viver com 2 salários-mínimos por mês — um do meu avô e um dela — de aposentadoria e, de quebra, ajudar as duas irmãs mais necessitadas da família — minha mãe e minha tia mais próxima. Dito isso, era louvável o fato de que ela, ainda assim, conseguir comprar essas míticas bolachas recheadas no Center Shop (não recebo nada pela propaganda) e levar pros netos em Gravataí. 3 pacotes pra mim e mais 3 pras minhas primas.

A vizinhança onde eu morava era pobre — ainda é, mas eu não moro mais por lá — o que conferia às bolachas uma grande status. Eu era o cara que tinha um NES (de segunda mão, como dizem os mais antigos quando se referem a algo usado, obra do meu pai numa das suas andanças pelo Rio de Janeiro nos anos 90) e os pacotes de bolacha semanalmente. Era 1995 mais ou menos, o plano Real era novo e tudo era bastante barato, um refrigerante Picolino (não me lembro mais da grafia) custava pouco mais de 30 centavos. 10 centavos de cada um dos amigos comprava uma garrafa reluzente de 2L, que ficava gelando enquanto a bola rolava no pátio embarrado da minha casa.

Depois do jogo, ainda com os pés sujos e suor escorrendo pela cara, era hora de finalmente degustar as iguarias que nos esperava. A bolacha de pêssego sempre teve um gosto doce e enjoativo, por isso harmonizava bem com o refrigerante cítrico de laranja (mentira, era o que tinha e o que dava pra pagar). Duas ou três horas depois e toda essa comida tinha se ido, todos estavam desgastados pelo esforço de livrar a terra de alguma invasão alien ou de ajudar as tartarugas ninja a derrotarem o destruidor — naquela época elas faziam sucesso enorme em todas as mídias, muito mais do que hoje. É uma das minhas lembranças mais antigas, comer fominhas de pêssego com refrigerante de laranja enquanto jogo NES. Febre e Donkey Kong

DKC

Acho que o ano era 1996, não consigo ter esse nível de detalhamento nas minhas lembranças, a ponto de saber o ano em que tudo aconteceu, mas me lembro que era o segundo ano que a ULBRA aqui no RS iria fazer vestibular para medicina e, por algum motivo que hoje me escapa a compreensão, minha mãe, mesmo sem dinheiro, fez as provas. Meu pai estava, de novo, viajando pelo interior do estado — naquela época ele ainda era servidor público pela CONAB e trabalhava em alguns programas assistenciais do governo FHC, distribuindo cestas básicas por todo o interior do estado — e eu estava com uma febre digna de ebola em casa. Minha avó se prontificou a cuidar de mim nos dois dias de prova.

Minha mãe, com medo que eu atucanasse demais a minha avó, deixou refrigerante e Trakinas — na época com muita gordura trans e farinha branca, custava 55 centavos num local que eu e meus amigos chamávamos de “padaria-açougue”, que era de propriedade um senhor de bigode grisalho, o Celso, que por si só dá outro texto ainda maior do que esse — e chamou o meu vizinho e mais antigo amigo, o Bruno, pra ir jogar comigo. Consegui ainda, graças a minha doença, convencer ela a alugar o Donkey Kong pro final de semana (como eu me lembro de tudo isso? Quando se é uma criança pobre é fácil lembrar dos dias bons e de como tudo se desenrolava naquela época). Era o ápice do entretenimento digital aliado com uma fina gastronomia adolescente. Se me dessem a chance de reviver um final de semana na minha vida, provavelmente seria esse o escolhido. Final Fantasy e o cheesecake farinhento.

Final Fantasy: The Spirits Within (2001).

Cortando alguns anos pra frente, minha mãe já estava separada e meu irmão já estava no mundo aloprando todo mundo na volta e eu já estava as portas da minha primeira graduação e o mundo conhecia a glória de um filme baseado em um jogo, Final Fantasy, e totalmente feito usando CG.

O filme não era bom, a CG era bizarra e o ano em si foi bem merda (2002 ou 2003, não me lembro, mas eu tive um combo de anos muito ruins de 2002 até 2006). Minha mãe, por algum motivo, fazia cheesecakes toda a semana, eles eram bons, mas farinhentos (aos poucos ela pegou a manha e hoje a sobremesa dela é bem boa até) que eu, ignorando qualquer paladar como um bom adolescente de 18 anos faz, comia na frente da TV. Era a época de ouro do Disk MTV com a Sabrina e das gatos na NET pelas periferias desse estado glorioso de Sartori e Melo. A gente tinha em casa um aparelho que pegava até HBO, mesmo sendo via antena, só precisava mudar um seletor atrás dele. Era tecnologia fina e pura.

Num dia dessas de primavera gaúcha, minha mãe estava ignorando o fato de morar numa das cidades mais violentas do estado e, junto com mais umas 4 amigas da rua, tomava chimarrão sentada numa cadeira de praia na calçada por volta das 10 da noite. Eu tinha acabado de acordar de uma dessas sonecas de 8h comuns aos adolescentes.

Na geladeira um pedaço cabuloso de cheesecake e na TV um filme merda em CG. O vento soprava pelas frestas abertas da janela da sala e a TV de 29’ — de tubo ainda — assobiava a música tema do FF maroto e sem esperança que alguém em Hollywood teve a ideia de lançar. Me estiquei no sofá velho da minha ex-sala e fiquei olhando, meio sem entender nada e meio não me importando com isso, por 2h praquele filme que, anos mais tarde, seria um dos piores que eu já assisti.

Não tem nada demais nessa lembrança. Ela não envolve amigos que morreram ou se afastaram, não envolve minha avó ou mesmo qualquer parente. Envolve apenas a simplicidade de se sentar na frente da TV, numa era pré-streaming, olhar preguiçosamente pra tela por quase 2h enquanto se delicia com um bolo farinhento e gelado, tudo isso depois de uma soneca que durou o dia todo.