Esse ano fez (em janeiro) 11 anos que eu comecei a trabalhar de verdade – tirando uns anos trabalhando com o meu pai, que ainda que contém como trabalho, eu não tinha nenhuma função específica que não fosse “fazer o que ele mandava” e depois “atender clientes e ficar no caixa”.

Pois bem, iniciei meu caminho lá em 2006 numa empresa de TI que era “fábrica de software” (e eles se orgulhavam disso) programando Pontos-de-Venda (PDV) em C usando um Slackware Linux na época da pedra. Era um subemprego que me pagava R$800 e só. E eu trabalhava nesses PDV/POS que davam problema o dia todo. Além disso eu tinha que cuidar de toda a área de versionamento desse software usando o Rational Clearcase (que eu fui procurar e descobri que é da IBM atualmente, mas duvido que alguém mais novo use ainda). Era um caos porque o servidor de versão era dentro da empresa, numa sala que era acessada apenas por quem tinha a chave – leia-se três pessoas que raramente estavam na empresa – o que me obrigava a ser constantemente levado a fazer horas-extra (na época eu era estagiário, mas não tinha nenhuma legislação a respeito disso, eu não recebia vale-refeição e muito menos vale-transporte e ainda trabalhava 30h semanais no papel, porque na prática eram mais de 40h). Muito fiquei nessa sala do servidor usando meu computadorzinho lá dentro mesmo, era mais simples e isso impedia que alguém trancasse a porta e deixasse a gente sem acesso físico ao servidor.

A pergunta que qualquer pessoas que trabalha com TI me faz agora é: porque não acessavam por SSH ou algo do tipo? Eu realmente não sei, eu tinha 23 anos e era o meu primeiro estágio em empresa grande, eu simplesmente fazia o que me mandavam, e, além disso, seguido era necessário reinicializar o servidor na mão – ele travava muito.

Saí de lá depois de 5 meses e 5 atrasos de salário – e porque eles queriam que eu trabalhasse de madrugada para seguir o fuso horário da Europa.

Meu segundo emprego foi vir apenas em 2008, trabalhando terceirizado para uma grande empresa de TI do Tecnopuc em Porto Alegre (a primeira também era). Novamente um subemprego. Ganhava menos de 1/3 (eu ganhava R$1100 mensais, pouco mais do que eu ganhava como estagiário 2 anos antes) do que os outros programadores e ainda era cobrado pela empresa que eu estava alocado e pela empresa que me assinava carteira. Fiquei menos de um mês nessa vida e larguei fora – quando deu a primeira oportunidade de revisar o contrato de trabalho inicial, pedi pra sair – porque eu não tinha previsão nenhuma de crescer ou de melhorar meu salário lá dentro (e no dia da demissão a gestora do RH da empresa ainda me disse que eu poderia ir pra Caxias do Sul se eu quisesse, até hoje não sei se isso foi uma ameaça e Caxias era uma Gulag deles ou se foi um oportunidade que ela achava única). A histórian me fez perceber que eu estava certo e, um mês depois de eu sair, todos os meus colegas foram demitidos (acabaram os contratos de tercerizados).

Nesse lugar eu trabalhava no segundo maior projeto da empresa. Era realmente grande. Tinha equipe com líder técnico e gerente. Bem diferente da baderna que era nos PDVs lá. O problema é que que eu era tratado como uma pessoa de segunda classe. No primeiro dia eu fiquei 8h lendo um manual de 800 páginas (não li nem 100) porque não tinha computador pra mim. No segundo, fiquei quase 4h no sol esperando por um exame médico que nunca foi feito e no terceiro dia eu ganhei um computador que dava choque – e eu fiquei feliz com isso, afinal eu tinha algo pra fazer além de passar trabalho. Do quarto ao décimo dia eu fiquei sentado no meio das baias, sem fazer nada, conversando e vendo as outras pessoas trabalharem porque, sabe-se lá Deus por qual motivo, deu um problema no banco de dados e chamaram um DBA externo que ocupou a minha mesa – e o meu computador que dava choque – me relegando ao corredor. Fiquei dias no corredor, almoçava por ali também.

Detalhes: eu não tive acesso a sala do projeto antes de 12 dias úteis porque eu não tinha crachá. Eu não recebi VR e VT nesses dias todos e tive que várias vezes almoçar um café de máquina e um salgadinho que tinha na recepção (que a recepcionista me deixava comer de boas).

Saí desse emprego e fui ser bolsista na universidade. Fiquei por 2 anos como bolsista dentro do Insituto de Informática trabalhando como monitor das cadeiras de programaçãoensinando C e PASCAL – experiência que as empresas cagam e andam, diga-se – até que minha bolsa não pode mais ser renovada e eu tive que sair. Não teve nada de ruim nem de bom nesses dois anos, apenas fiquei por ali, ensinando e estudando.

Em 2009 “trabalhei” uma semana numa empresa que jamais me pagou, que não assinou minha carteira – e ainda tentou reter meus documentos – que não me deu VR ou VT e que no final da semana ainda disse que eu era preguiçoso e que eles esperavam que eu me demitisse porque eu não tinha “sangue nos olhos”. Trabalhei atendendo telefone e dando passo-a-passo pra empresas menores do que essa em Linux (como colocar um servidor LAMP no ar, essas coisas) e fiquei 2 dias depois do horário porque o chefe não estava na empresa pra liberar o pessoal (!!). Eu deveria ter trabalhado novamente com C nessa empresa, mas, graças a Deus, eu jamais voltei a por os pés nela depois dessa semana. Detalhe, o salário oferido em 2009 pra um programador era de R$800 mensais.

Em janeiro de 2010 eu entrei na pior empresa que já assinou a minha carteira. Fiz uma entrevista para ser programador web (PHP, principalmente) e quando iniciei meus trabalhos eles me deram uma “treinamento” – na verdade uma sessão de P&R com um funcionário que tinha aprendido a mexer na ferramenta uns dias antes de mim – de 2 horas e me soltaram ao lado do ALTOVA – que, sinceramente, até hoje eu nem sei como funciona e pra que serve – até o dia em que me mandaram “cuidar do Banco de Dados da empresa”. Disse que eu não sabia e alertei pro grande potencial de fazer coisa errada, fui taxado de preguiçoso mais uma vez, e posto a cuidar do BD mesmo assim. Fiquei ali por 2 horas e acabei fazendo merda numa tabela qualquer lá e dei um DROP TABLE achando que era um banco de testes – afinal, quem coloca na mão do funcionário que está a dois dias na empresa o banco de dados de produção, sem backup e sem redundância?

Saí da minha pequena mesa debaixo da escada (SIM!) e fui falar com um dos outros funcionário que eu precisava clonar o banco de dados de novo porque eu tinha apagado uma tabela lá. A expressão de pavor emoldurada pelo rosto cada vez mais pálido do cara me fez crer que a situação era complexa em níveis que eu não imaginava. Me sentei na mesa e pensei “ok, não pode ser verdade que só existe aquele banco, deve ser uma sacanagem com o cara novo”.

Cinco minuto se passaram e veio o chefe na minha mesa, todo vermelho e bufando como um touro. Me mandou, rispidamente, ir até a sala de reuniões. Cheguei lá e encarei umas 10 pessoas que desataram a me xingar de burro e tudo mais (assédio moral, seu lindo) até o momento em que chamei todo mundo ali de incompetente, dei um soco na mesa (esperando ser levado pra fora pelo segurança) e mandei todo mundo tomar no cu (literalmente). O que eu não esperava era um dos “chefinhos” se levantar e me encarar em posição de luta (nessa hora eu só pensava que eu ia brigar dentro da empresa e depois ser preso por agressão ou algo do tipo) enquanto berrava que eu era um imbecil que nunca deveria ter nascido. Dei o segundo soco na mesa quase ao mesmo tempo em que senti a mão do segurança no meu ombro. Fui levado pra fora, fui pago pela metade e essa semana desobri que, ainda que eu tenha tido FGTS descontado, ele nunca foi depositado na minha conta.

Saí dali pro CPD da UFRGS, onde eu trabalhei mais alguns meses programando em Delphi sem muito estresse. Trabalhava num projeto de extensão de manhã e de tarde tinha aula de avaliação de desempenho.

Ainda em 2010, julho dessa vez, sai do CPD fa UFRGS direto pra outra empresa do Tecnopuc, ser programador Java (Analista de Desenvolvimento Java I, belo título) onde eu fiquei pouco tempo porque, basicamente, me contrataram sem ter trabalho pra mim. Tive meu contrato encerrado exatamente nesses termos (era uma boa empresa, diga-se). Me chefe pediu desculpas dizendo que tinha perdido o projeto e que eu ia sair. Até hoje estou ressentido de, quando finalmente tinha achado um emprego bom, sair assim.

Em 2010 terminei trabalhando como programador web (PHP) por mais uns meses até que fiz vestibular de novo em 2011 e passei pra Letras na UFRGS.

2011 inteiro eu trabalhei como programador web fazendo objetos de aprendizagem na universidade, foi um tempo bom apesar de pagar pouco. Aprendi bastante PHP e CSS na época, coisa que eu nunca tinha tido muito tempo.

Em 2012 saí desse núcleo pra ir pra um projeto de pesquisa onde fiquei diretamente e indiretamente até 2014 (mais de 2 anos) trabalhando como Python e NLTK. Nesse projeto foi onde, em 2014, finalmente eu fiz um treinamento formal em UML, PHP e OO. Fiz um sistema do zero – de gerência de terminologias – e saí de lá para trabalhar com mais programação web pro governo.

Somente em 2015/2016 eu fui trabalhar de fato na minha área de formação – Letras – quando eu fiquei de bolsista na editoria de uma revista científica. Era o faz-tudo bem dizer: lidava com fornecedor (gráfica), autores, pareceristas, organizadores. Tudo o que era do dia-a-dia da revista eu cuidava e repassa pro corpo editorial. As vezes até dava uma revisada de leve nos artigos.

Concomitantemente a essas últimas experiências, eu trabalho desde 2011 como tradutor autonomo (até hoje, inclusive é o que sustenta agora).

Se eu for contar tudo o que eu fiz, eu tenho (não estou somando): • 2 anos de experiência com C (2006/2008);

• 1 ano de experiência com Delphi (2009/2010);

• 2 anos de experiência com PASCAL (2008/2009);

• 1 ano de experiência com Java (2010);

• 6 anos de experiência com PHP (2010/2011~2015);

• 2 anos de experiência com Python e NLTK (2012/2014);

• 7 anos de experiência como tradutor.

Nesse meio tempo trabalhei com inúmeras ferramentas e tecnologias de TI, algumas já mortas ou sobrevivendo num nicho muito específico (Altova, Delphi, Suíte Rational e WebLogic) que me fazem perceber como 90% dos conselhos que eu tive dos meus ex-chefes foram tiros n’água que jamais deram em nada (eles erraram muito) e que a maior parte da minha experiência com programação se deu dentro da universidade, as empresas “apenas” me ensinaram a lidar com pessoas diariamente e a ser capaz de resolver problema de forma rápida mas, nem sempre ótima.

Hoje eu me preocupo muito mais com o meu anteprojeto de mestrado e o meu trabalho diário como tradutor do que com TI (ao menos como eu me preocupava antes) porque eu vejo a informática como uma ferramenta diária de transformação que não pode ser cooptada por empresas, patentes ou coisas do tipo. Iniciativas como o Partido Pirata, FISL e ASL são as que mais se alinham a minha ideologia em relação a TI e empregos de um modo geral.

Hoje, mais do que qualquer coisa, eu gosto do que eu faço (traduzir) e gosto da capacidade que eu adquiri, a duras penas, de interseccionar 3 áreas (línguas, programação e jogos) para pesquisar no mestrado.

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